O sistema ocular do ser humano fazendo parte integrante do seu cérebro, esboça-se ao mesmo tempo que este: apenas 18 dias após a conceção! Ao fim de 7 semanas de gravidez, vislumbra-se a saliência dos olhos! Parecem dois botões de botina. Nesta fase, estão afastados e parecem enormes porque ainda não têm pálpebras. Vão aproximar-se gradualmente e estas partes móveis encarregadas de os proteger aparecerão no 3.º mês de gravidez. Inicialmente fechadas, abrirão no 4.º mês. Milagre da natureza: ao 7.º mês da sua vida intrauterina, todo o potencial visual do feto está pronto a funcionar. Quando a criança vem ao mundo, vê incomparavelmente melhor do que os gatinhos, mas de forma ainda imprecisa!
No entanto, trabalhos científicos mostram que os recém-nascidos preferem a complexidade à simplicidade. Desde as primeiras semanas de vida, parecem mais atraídos por um desenho com riscas ou quadrados muito contrastados do que por uma superfície lisa. As mães sabem-no. São também mais sensíveis a rostos móveis e sorridentes do que à impassibilidade.
COM UM MÊS
Com um mês, um bebé sabe acomodar: é capaz de ver de 20 a 50 centímetros e começa a seguir com o olhar. Até aí, não é raro que uma criança tenha um «desvio» no olho: uma ligeira tendência a estrábizar. Simplesmente porque, nesta fase da sua maturação, os olhos ainda estão mal coordenados.
AOS TRÊS MESES
Os primeiros reflexos de convergência aparecem antes dos 3 meses. A criança segue então os movimentos com cada vez mais precisão. O seu mundo alarga-se. Esta instalação da convergência — o facto de os dois olhos olharem para o mesmo ponto ao mesmo tempo — prossegue e aperfeiçoa-se até ao 6.º mês. A tendência que alguns bebés têm a "estrábizar" — esta anomalia chamada estrabismo — deverá ter desaparecido.
AOS SEIS MESES E DEPOIS
Nesta idade, o bebé ainda vê de forma imperfeita. A sua acuidade visual — a sua capacidade de distinguir detalhes muito finos — é então apenas de 1 a 2 décimas! Reconhece globalmente um rosto diferente do da mãe, deteta um sorriso mas não o detalhe dos lábios. É apenas por volta dos 3 ou 4 anos — quando os seus olhos atingiram um tamanho normal — que a sua acuidade é, na maioria das vezes, de cerca de 10 décimas, o que pode ser considerado uma boa visão.
Algumas crianças atingem, por volta dos 6 anos, 13 décimas.
Quando o olho não está "em forma"
Uma boa saúde dos olhos engloba diferentes elementos: uma boa acuidade visual, uma boa coordenação e uma motricidade satisfatória dos olhos.
A acuidade visual é condicionada pela precisão ótica dos olhos. Na maioria dos casos, uma criança que vê mal pode ser míope, ou hipermétrope, e/ou astigmata. Responsável: a forma geométrica dos olhos. Diz-se de um olho míope que é demasiado "longo"; de um olho hipermétrope que é demasiado "curto"; de um olho astigmata que apresenta um defeito de curvatura. Na realidade, estes termos caracterizam a relação entre a curvatura da córnea e a profundidade do globo ocular.
A miopia é devida a uma anomalia da visão que faz com que a imagem se forme à frente da retina e não sobre ela. Geralmente, uma criança muito míope vê mal ao longe mas bem ao perto. Tem tendência a desenhar ou escrever com o nariz colado ao caderno e a decifrar as letras com os olhos fixos no livro. No entanto, esta atitude só revela um defeito visual em 20% dos casos.
A hipermetropia faz com que a imagem se forme atrás da retina e não sobre ela. Ao contrário de uma criança míope, uma criança hipermétrope vê razoavelmente bem ao longe e menos bem ao perto.
Cansa-se de tanto olhar de perto ao ponto de ter dores nos olhos e na cabeça. Uma hipermetropia ligeira passa frequentemente despercebida. Em contrapartida, quando este defeito é importante, apercebemo-nos cedo, pois é frequentemente acompanhado de um estrabismo convergente que pode desaparecer quando se corrige a hipermetropia.
O astigmatismo é, na maioria das vezes, devido a uma irregularidade de curvatura da córnea. Em vez de ser redonda como uma bola de futebol, está mais próxima de uma bola de râguebi. A visão é fraca ao perto como ao longe. Quer olhe para o caderno ou para o quadro negro, uma criança astigmata confunde letras parecidas como o "H" e o "M". Tem uma visão turva dos objetos. O astigmatismo é certamente o defeito visual mais generalizado, pois são muito raras as córneas perfeitamente esféricas. É também raramente isolado. Muitas vezes é-se míope e astigmata ou hipermétrope e astigmata.
A coordenação dos olhos, ou visão binocular, caracteriza a capacidade que o cérebro tem de construir uma única imagem a partir das duas que os dois olhos percebem. Se estes tiverem dificuldade em convergir para o mesmo ponto — por exemplo, numa letra de uma palavra — é sinal de uma má coordenação.
Responsável: um estrabismo ligeiro, por vezes invisível. Uma criança que estrabiza vê as letras a dobrar. Esta situação torna-se rapidamente intolerável e, espontaneamente, utiliza apenas um olho para ler: o seu cérebro neutraliza uma das imagens.
Perigo: o outro olho torna-se preguiçoso, ineficaz, por vezes até inútil. A motricidade diz respeito à aptidão dos olhos para seguir um objeto que se desloca à velocidade da tartaruga como à de uma lebre. Os nossos olhos são capazes de dois tipos de movimentos: movimentos de perseguição lenta, mas também movimentos rápidos chamados sacadas pelos especialistas.
As sacadas permitem passar de um ponto de fixação visual para outro a grande velocidade: à rapidez de um avião supersónico a voar a 20 metros. Após cada sacada, o olho "aterra" num ponto do texto.
Prevenir e detetar os problemas de visão
AMBLIOPIA: A TRATAR DESDE OS 3 MESES
Estranha anomalia... Um dia, percebe-se que a criança vê mal, de um olho ou dos dois, e no entanto, quando os observamos, não apresentam qualquer perturbação aparente. A sua acuidade visual é, pelo contrário, muito fraca, de tal forma que as imagens que chegam ao cérebro são de má qualidade. Este torna-se preguiçoso: não aprende a ver.
Na criança pequena, a ambliopia é — em mais de 50% dos casos — secundária a um estrabismo por vezes tão ligeiro que é imperceptível: o olho torna-se amblíope porque não é utilizado. Inversamente, a ambliopia pode ser responsável pelo estrabismo. Outras causas de ambliopia: uma miopia forte, uma hipermetropia, um astigmatismo.
Independentemente da sua origem, uma ambliopia deve ser detetada e tratada muito precocemente. Se se intervir antes dos 2 anos, o sucesso é quase total. Entre os 2 e os 6 anos, recupera-se apenas 50% da visão. Mais tarde, na idade da aprendizagem da leitura, a recuperação é muito mais aleatória, mais lenta e também mais exigente. Quando submeter o seu filho a um teste de rastreio da ambliopia?
se um brilho branco aparecer na sua pupila,
se existem casos de estrabismo na família,
se a criança usa sempre o mesmo olho, se é indiferente quando se tapa o outro mas chora quando se coloca a mão no seu «bom» olho. Hoje em dia, é possível corrigir uma ambliopia devida a problemas de visão desde os 2 ou 3 meses, graças a óculos ou lentes de contacto muito bem tolerados pelos bebés.
Sendo o olho deficiente tratado, o cérebro aprende a ver, a receber as imagens corretas. Quando a ambliopia é devida a uma doença — glaucoma, catarata congénita... — É na maioria das vezes tratada cirurgicamente pelo oftalmologista.
Entre os 0 e os 4 anos, a visão das crianças não para de progredir. O recém-nascido fixa o olhar e segue com os olhos desde o nascimento. Às 3 ou 4 semanas, fixa o olhar da mãe quando esta lhe fala ou o alimenta. Às 6 semanas, segue com os olhos as pessoas que se movem na divisão. Às 8 semanas, segue um objeto que se move em mais de 90° e às 12 semanas, acompanha-o de um lado ao outro. É de dizer o quanto é inútil esperar que uma criança vá à escola para saber se tem boa visão. Certos problemas de visão manifestam-se muito cedo e tratam-se tanto melhor quanto mais precoces forem os tratamentos.
É por essa razão que dois exames obrigatórios estão previstos ao 9.º e ao 24.º mês de vida da criança.
Certos defeitos podem mesmo ser diagnosticados desde o nascimento, durante a estadia na maternidade. É o caso de alguns estrabismos.
Entretanto, os pais devem estar atentos a inúmeros detalhes, mesmo que — aparentemente — não estejam relacionados com a visão. Uma criança pequena que se recusa a rabiscar, que se desinteressa de tudo o que é atividade visual (puzzle ou outro) ou que parece desajeitada tem, talvez, um problema de visão. Tal como aquela que se queixa vagamente de dores de cabeça, de olhos "que ardem", que tem os olhos vermelhos ou os esfrega...
Trata-se — na maioria das vezes — de um problema ligeiro, considerado comum e fácil de corrigir. Como sabe, são raros os indivíduos que possuem "olhos de lince", uma visão sem defeito. A atenção deve estar ainda mais desperta se a criança nasceu prematuramente, se o seu peso era inferior a 2,5 kg e se o pai ou a mãe é míope ou se um dos dois sofre ou sofreu de estrabismo. Quando um dos pais é afetado por este tipo de defeito, a criança tem um risco em dois de o ser também.
Em todos os casos, recomenda-se fazer realizar um exame da vista — pelo menos uma vez por ano — entre os 3 e os 6 anos. De preferência recorrendo a um oftalmologista habituado a crianças, que saiba abordá-las e testá-las com o auxílio de material adaptado às crianças pequenas que ainda não sabem ler.
As soluções para ver e ler bem
O oftalmologista descobriu um pequeno defeito visual no seu filho, não entre em pânico! Trata-se, na grande maioria dos casos, de uma anomalia ligeira, fácil de corrigir. Na primeira infância, os defeitos mais frequentes são a hipermetropia e o astigmatismo. Nesta fase da vida, a miopia é rara.
Aparece geralmente mais tarde: por volta dos 6, 8 anos. Progride depois com o crescimento para se tornar verdadeiramente incómoda entre os 8 e os 13 anos, antes de se estabilizar por volta dos 20 anos. Importante a saber: quanto mais cedo uma miopia se manifesta, maior é o risco de ser importante na idade adulta. Hipermetropia, astigmatismo, miopia... Não devemos fazer um drama disso. Estes defeitos corrigem-se muito bem desde que a criança aceite usar os óculos.
OS ÓCULOS: UMA COQUETTERIE, UM PRAZER
Hoje em dia, este objeto tornou-se num acessório de moda e a maioria das crianças considera uma recompensa ter de usar óculos! Os que os oticistas lhes propõem já não são reduções de modelos para adultos. As novas armações para crianças têm em conta a morfologia particular da tenra idade: ausência de saliência nasal, bochechas rechonchudas, orelhas frágeis.
Os fabricantes têm também em conta a vida dura que alguns "brutos" impõem aos seus óculos. Atualmente, as hastes têm dobradiças flexíveis. Pode-se brincar a pô-los e a tirá-los sem receio de os partir.
As lentes, finalmente, apresentam grande resistência aos choques e ao atrito quando são tratadas com descuido. Fabricadas num vidro chamado "orgânico", são praticamente inquebrávéis. Última vantagem: os óculos para crianças — armações e lentes — são, por fim, melhor reembolsados do que no passado!
E AS LENTES?
No mundo, 30 milhões de pessoas usam lentes de contacto, entre as quais um certo número de crianças e até de bebés! Neste último caso, é claro que cabe à mãe aprender a manipulá-las. Assim, as lentes constituem frequentemente um meio melhor do que os óculos para corrigir a ambliopia ou o estrabismo.
Fora de casos particulares, é preferível, no entanto, aguardar que a criança tenha idade para se virar sozinha antes de lhe propor lentes de contacto. É preciso saber colocá-las no olho, retirá-las para dormir, cuidar delas...
Outros tantos gestos que podem ser vividos como uma imposição por uma criança. Particularmente se não foi ela própria a escolher este modo de correção. O sucesso, em matéria de uso de lentes, depende muito da motivação de cada um. É assim que alguns grandes desportistas de cerca de dez anos se adaptam muito bem a elas, enquanto outros as abandonam.
REEDUCAÇÃO E CIRURGIA
Certos defeitos visuais alertam mais os pais. É o caso do estrabismo. Da ligeira "coquetterie" correspondente ao desvio de um olho a um "estrabismo" mais pronunciado, uma em cada 20 crianças é afetada. O estrabismo pode ser provocado por um olho que se torna preguiçoso porque não vê bem, ou mais raramente por um defeito num dos músculos que comandam o olho.
No primeiro caso, o uso de óculos especiais — desde os 3 ou 4 meses — e, posteriormente, uma reeducação ocular praticada com um ortoptista podem ser suficientes para corrigir o olho em causa.
As mães nem sempre aceitam bem os óculos no pequeno nariz do seu bebé. As crianças, por sua vez, não parecem de todo incomodadas. Adaptam-se muito rapidamente. No segundo caso, uma intervenção cirúrgica destinada a recolocar os olhos no eixo correto é necessária.
Os especialistas recomendam este gesto por volta dos 5 anos, antes da entrada para a "escola primária". Por vezes mais cedo: por volta dos 2 anos e meio. Esteticamente, o resultado é de 98%. Do ponto de vista da qualidade da visão, o sucesso depende dos problemas associados: hipermetropia, astigmatismo, mais raramente miopia nesta idade, ambliopia. Cada estrabismo é um caso particular que necessita de um acompanhamento adaptado.
Quando consultar na idade da leitura? Os sinais de alerta
Iniciação à escrita (a criança brinca a traçar curvas, pontes, traços, o seu nome), à leitura (aprende a ler o seu nome, a reconhecer certas letras...) — é na pré-escola avançada ou na entrada para o 1.º ano que se revelam certos defeitos visuais que passaram despercebidos na primeira infância.
Os professores têm um papel fundamental de observação a desempenhar, mas cabe também aos pais estarem atentos a certos sinais:
piscar de olhos muito frequente,
franzir de sobrancelhas,
olhos vermelhos que choram ou que "ardem",
cansaço ou dores de cabeça ao regressar da escola,
dores na nuca,
a criança desenha, escreve ou lê com o nariz colado ao caderno, ao livro,
quando lê, acontece-lhe perder a linha; reler duas vezes a mesma linha ou a mesma palavra,
confunde certas letras,
não gosta de ler ou não lê por muito tempo,
no final do 1.º ano, não retém o que lê,
acontece-lhe estrábizar,
é exageradamente sensível a luminosidades intensas...
Se o seu filho apresentar uma destas particularidades, pode tratar-se de um defeito menor, de um incómodo que não está obrigatoriamente ligado a um defeito visual. Por precaução, consulte a opinião de um especialista.
Ler: um prazer a fazer descobrir
Tal como os brinquedos, os livros pertencem cada vez mais cedo ao universo da criança. Livros em tecido ou em cartão "indestrutível", livros que se manipulam ou que se mastigam na idade dos primeiros dentes... Os bebés adoram estes objetos povoados de ursos, coelhos, galinhas ou crocodilos.
Vem depois o tempo das histórias. A leitura é a oportunidade de um momento privilegiado entre a criança e o adulto, desde que se escolha o momento propício. A criança é muito cedo sensível às cores, à expressão das personagens e até à tipografia. Sabe quando o macaco fez uma asneira, quando a mamã ursa está zangada ou o pintainho triste. Percebe pela diferença de tamanho das letras quando algo acontece na narrativa. E, a longo prazo, a leitura da imagem favorece a do texto escrito.
Por volta dos 18 meses, uma criança interessa-se pelos livros de imagens, esses livros onde uma palavra está associada a uma ilustração. Já se pode inscrevê-la numa biblioteca especializada, ensiná-la a gostar, a manusear e a respeitar os livros verdadeiros, o prazer das belas ilustrações. A atração que nós próprios sentimos pelos livros motiva-a.
Por volta dos 2 anos e meio, a criança é capaz de reconhecer o seu nome escrito em letras de imprensa. Começa a conseguir associar um animal, uma árvore, uma flor, um brinquedo... A uma palavra. Em breve vai adorar decifrar, "ler" as embalagens de produtos familiares: farinha, chocolate...
Por volta dos 3, 4 anos, brinca a copiar: mamã, papá, gato, cão... Inconscientemente, compreende que a leitura passa pela escrita e vice-versa. Por isso, não se trata de desempenhar o papel da professora do jardim de infância e "refazer a aula" à noite, mas simplesmente de estar atento aos interesses do seu filho.
Por volta dos 4, 5 anos, gosta das coletâneas de lengalengas onde pode reencontrar palavras aprendidas de cor. Se tiver uma paixão por baleias, carros ou dinossauros, é o momento de lhe oferecer a sua primeira enciclopédia: a obra ideal para lhe ensinar mais sem ensinar demasiado, sem o aborrecer demasiado, dando-lhe ao mesmo tempo o gosto de aprender a ler.
É assim que se favorece a inclinação de uma criança pequena para a leitura: a partir de jornais especializados ou não, de jogos de tabuleiro cujas instruções é preciso ler, ou mesmo de receitas de cozinha simplificadas.
Ler com uma criança, no quotidiano, é ensiná-la a observar, a desenvolver o seu vocabulário, a enriquecer os seus conhecimentos.
NOVIDADES SOBRE A DISLEXIA
Na idade da aprendizagem da leitura e da escrita, 8 a 10% dos alunos sofrem de dislexia: um problema que se traduz por uma dificuldade em ler e compreender sem paragens frequentes. Ao contrário do que alguns pensavam, este fenómeno não seria devido a uma disfunção da linguagem mas, talvez, a uma falha do sistema visual.
O interesse desta descoberta — feita por uma equipa de neurologistas de Harvard — seria o de permitir, a longo prazo, um rastreio precoce da dislexia seguido de uma reeducação das crianças envolvidas desde a mais tenra idade. Caso a seguir...
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